EL qualidade na pintura industrial é, para a maioria das empresas, sinônimo de tinta e acabamento final — como se a cabine, sozinha, garantisse o resultado. Mas quem lida de perto com linhas de pintura sabe que essa conta não fecha. Reunimos três especialistas que atuam em pontos diferentes (e pouco falados) desse processo para discutir o que realmente acontece nos bastidores, antes mesmo da tinta tocar a peça. A conversa foi conduzida por Danielle Inocente, especialista em filtragem e estrategista industrial da Koria, com a participação de Carlos Eduardo Rocha Campos, CEO da Max Group (decapagem de dispositivos e ferramentas de pintura), Rafael Vargas, gerente de desenvolvimento de negócios do Grupo GPS (limpeza técnica de cabines de pintura) e Fábio Gudeliauskas, direto geral da Kluthe Química do Brasil (tratamento químico das águas de cabines de pintura).
A qualidade na pintura industrial começa muito antes da tinta
Como abre Danielle, a qualidade de uma pintura industrial “começa muito antes dessa tinta chegar na peça”, na preparação, no cuidado da cabine, na limpeza, nos insumos corretos, nos filtros adequados e até no tratamento da água que abastece essas cabines. Foi esse o fio condutor de toda a conversa: três frentes que parecem separadas, mas que estão profundamente conectadas.
Gancheiras e dispositivos: o “problema banal” que trava a linha inteira
Carlos, da Max Group, começa apontando algo que muita empresa trata como detalhe: a limpeza (decapagem) de gancheiras, ganchos e dispositivos de pintura. Segundo ele, é um problema estrutural mais comum em empresas médias e pequenas. As grandes indústrias costumam ter laboratório próprio para estudar quantos ciclos uma gancheira aguenta antes de precisar de limpeza; as menores, na maioria das vezes, não.
Carlos também é direto sobre uma prática ainda comum em algumas plantas: limpar dispositivos “na marra”, com martelinho e ferramenta manual. Além de já não ser usada por quem tem processo automatizado (reciprocador), essa prática danifica o dispositivo e amolece fisicamente o aço, que já gerou acidentes de linha registrados.
O impacto final não é só estético: peça não pintada, retrabalho e refugo afetam diretamente prazos de entrega e resultado financeiro.
Limpeza convencional x limpeza técnica de cabine
Rafael, do Grupo GPS, traz uma distinção que resume boa parte do problema: limpeza convencional não é a mesma coisa que limpeza técnica.
- Limpeza convencional é estética. Tirar o pó, limpar o piso, “bater o olho” e a cabine parece limpa.
- Limpeza técnica é controle de processo. Envolve parede, piso, filtro, todo o sistema, com o objetivo de manter a estabilidade do ambiente de pintura.
Quando uma empresa substitui a limpeza técnica pela convencional para economizar, segundo Rafael, o efeito é sentido direto no caixa: o filtro, que não é barato, satura antes da hora, exigindo manutenção antecipada; aparecem defeitos clássicos de pintura, como o efeito casca de laranja; e há perda de eficiência no fluxo de ar da cabine, o que compromete o controle do processo como um todo.
O ponto central é que tratar limpeza técnica como custo, e não como parte do processo, é prejuízo, não economia. Gera mais trabalho, mais consumo de insumos e mais paradas indesejadas na linha.
O elo invisível: o tratamento químico da água da cabine
Fábio, da Kluthe, completa o quadro com a parte que menos aparece no dia a dia: o tratamento químico da água que circula nas cabines de pintura.
Sua analogia resume bem o ponto: “o tratamento de água é igual o rim. Ninguém cuida até sentir a dor.” Ele já viu montadoras operando com a cabine seca, sem circular água, só porque alguém decidiu não fazer a manutenção, e a qualidade do carro saindo da linha reflete exatamente isso.
Fábio também chama atenção para um erro comum e perigoso: jogar solvente diretamente na água da cabine para tentar “resolver” o problema. Isso tem o efeito oposto, o solvente reativa a tinta que deveria estar sendo neutralizada, aumentando o consumo de produto químico necessário depois. O caminho correto é a coagulação adequada da tinta e a reciclagem do solvente, e não seu descarte informal.
Não é sobre tinta, nem sobre cabine. É sobre controle.
A conclusão dos três especialistas converge para o mesmo ponto: gancheiras, limpeza de cabine e tratamento de água não são etapas isoladas, são partes do mesmo sistema, e um problema em qualquer uma delas se propaga para as outras.
Quando o processo está ajustado, o resultado deixa de ser uma tentativa e passa a ser uma regra. Quando não está, a conta sempre chega em forma de retrabalho, refugo, manutenção antecipada de filtro ou parada de linha. Não se economiza cortando limpeza técnica ou tratamento químico; economiza-se ajustando o processo como um todo. Assista o episódio completo.